sábado, 25 de junho de 2016

HISTÓRIA DE IBIPORÃ - PR.

FOLHA DE LONDRINA.
25/06/2016

MEMÓRIA - Tempos que vão além das histórias

Passado de Ibiporã foi resgatado pelo Circuito das Capelas; histórias foram recuperadas e catalogadas pela Fundação Cultural

Fotos: Anderson Coelho
Construída em 1957, a Capela São João Batista foi reformada recentemente: cenário de muitas comemorações
 

Ibiporã – O bairro é Poço Bonito, zona rural de Ibiporã (Região Metropolitana de Londrina). O cenário é de calmaria total. A capela parece isolada. Ao lado, um pequeno bar, onde alguns poucos moradores estão reunidos em clima cordial. À frente, um campo de futebol que serve de pasto aos poucos animais. Mas a pequena comunidade distante cerca de 15 quilômetros do centro da cidade esconde um passado rico, fortalecido pela era cafeeira. Não menos ricas são as memórias guardadas da época de ouro, que motivou festas e mais festas. 
Histórias não faltam. E quem as contam são os próprios moradores. Os poucos que ainda restam. "Aqui tudo era (plantação de) café antigamente, e onde tinha café tinha muita gente. A gente tinha duas festas: em maio, mês de Nossa Senhora, e depois a festa da colheita, em dezembro e janeiro", relembra a trabalhadora rural aposentada Maria das Neves Silva Messias, de 57 anos. "Mas depois começou dar muita briga e foi acabando. Antigamente era muito gostoso, vinha circo, os cantores famosos da época, fazia toureada", completa Pedro Fusquiani, de 69 anos, que ali viveu por ali momentos inesquecíveis de sua vida. 
O café e os frutos do campo trouxeram as pessoas, e com elas surgiram as comunidades. Vieram as procissões, as romarias, as festas. Histórias que fazem parte de uma cidade prestes a completar 69 anos. As memórias que não estavam nos livros, mas ainda viviam nas lembranças de cada um destes pioneiros, agora estão eternizadas. O passado de Ibiporã foi resgatado pelo Circuito das Capelas, projeto de recuperação histórica que teve como ponto de partida as 24 capelas da cidade – 12 rurais e 12 urbanas. 
Uma a uma, elas foram catalogadas pela Fundação Cultural de Ibiporã. Ao longo de dois anos, foram recuperados históricos das práticas culturais e religiosas que os pioneiros mantinham nas comunidades nas décadas de 40, 50 e 60. E os depoimentos colhidos agora integram um documentário que ajuda a contar o início da história da cidade. "Eram esses eventos, procissões, quermesses, romarias, que agregavam as pessoas em volta do bairro e foram formando as comunidades", destaca o secretário de Cultura de Ibiporã, Júlio Dutra. 

PONTO DE ENCONTRO
Quem olha a comunidade do Barra do Jacutinga não é capaz de imaginar o que já se passou por lá. A pequena capela São João Batista, construída em 1957, e recentemente reformada, foi cenário para muitas comemorações. "Era o único ponto de encontro que a gente tinha, senão cada um ficava na sua casa, que são longe umas das outras", conta a dona de casa Maria José Ribeiro Sartori. 
A aposentada lembra com exatidão dos tempos de criança. As muitas quermesses que embalavam as noites geram saudade. "Fiz minha primeira catequese aqui, naquela época ainda tinha". Mas a ligação da família com a comunidade começou muitos anos antes, com o avô, José Alves Ferreira, que ficou conhecido como Herculano. "Ele foi um dos fundadores da capela. Foi o capelão (espécie de ministro da época) da primeira missa, ajudava a organizar as procissões. E a gente vinha junto", recorda-se. 
As tradicionais festas juninas, realizadas todos os anos, são um marco para a história da comunidade. Mas não era só isso. "Qualquer coisa era motivo para festa e isso trazia muita gente para cá. Isso aqui era tudo cheio de casa, mas com o passar do anos modernizou tudo, os patrões começaram a tocar os sítios sozinhos e o povo foi embora para a cidade", cita. A ligação com o local onde nasceu é tão grande que depois de 44 anos em Londrina ela voltou a morar na comunidade em 2010.
Rafael Souza
Reportagem Local